sexta-feira, 29 de julho de 2016

O homem inteiro


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[“HE WILL BE MINE IN ROUND NINE”] Dizem que o coração humano é do tamanho de um punho fechado. Esta é uma breve história em nove assaltos daquele que nunca caiu fora do ringue, assim se tornando o Maior dos atletas. É a história do próprio coração do desporto.

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[“HE MAY BE GREAT BUT HE WILL LEAVE IN EIGHT”] Cassius Clay, um jovem de 22 anos de Louisville, no Kentucky, não precisou que ninguém lhe dissesse que ia ser Grande. Olhando o corpo derrotado do superfavorito e agora ex-campeão Sonny Liston, deixa de poder conter o grito que o habita: “Abalei o mundo! Abalei o mundo! Eu sou o Maior de todos!”

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[“IF HE WANNA GO TO HEAVEN, I’LL GET’EM IN SEVEN”] Poder-se-á nascer uma segunda vez? Pleno de confiança, na semana seguinte ao combate com Liston, Clay anuncia a sua conversão ao Islamismo. “Cassius Clay é um nome de escravo. Não o escolhi e não o quero. Eu sou Muhammad Ali.”

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[“HE’LL BE WORTH OF A FIX IF I CUT HIM TO SIX”] Há actos que catapultam para a grandeza. Ali teve o seu naquela manhã de Abril de 67 em que arrisca tudo. O movimento dos direitos civis e a tensão racial andam nas ruas. “Não tenho desavenças com os vietcongues, nunca nenhum me chamou preto...”, disse antes de chegar ao centro de incorporação do exército em Houston. “Não serei usado pelo homem branco como um instrumento para matar pessoas que estão a lutar pela sua liberdade”, acrescentaria dias depois. Ainda que muçulmano, à semelhança de Pedro, Ali recusa por três vezes responder à chamada do seu nome. O oficial de incorporação avisa-o que arrisca cinco anos na prisão. Ali recusa novamente. É preso. Notem... aqui está um homem, um negro deus grego no seu apogeu, a abdicar das glórias futuras, e das conquistas passadas, em nome do que acredita ser certo. Muhammad Ali entrou naquele centro de incorporação do exército com o título de campeão mundial de pesos pesados. Despojado do seu título e com uma proibição de combater por um período de três anos, saiu dele como o Maior dos homens que ali se encontravam. Este foi o seu grande combate, esta a maior das suas vitórias.

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[“IF HE KEEPS TALKING JIVE, HE’LL GO IN FIVE”] Welcome back, ladies and gentlemen, to the fifteenth and final round of the fight between world heavyweight champion Joe Frazier and challenger for the title Muhammad Ali. And what a fight it’s been! Both fighters touch gloves and it starts. Oh My God, Frazier lands a tremendous left hook that puts Ali on his back! Muhammad Ali is down at the beginning of the fifteenth round, ladies and gentlemen, and for the first time in his professional boxing career he may very well lose a fight!!!

(Terminado o combate, Joe Frazier mantém o título, mas os dois pugilistas são levados ao hospital. Ali e Frazier permaneceriam amigos até ao dia em que o segundo morreu.)

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[“IF HE MAKES ME SORE, I’LL GET HIM IN FOUR”] Sim, pode nascer-se uma segunda vez. À luz da manhã, Ali corre, treina numa estrada de um bairro de lata de Kinshasa, no Zaire. Vê interiores de casas e paredes destruídas. Não vê tectos nem canalizações. “The Rumble in the Jungle” foi mais do que um combate de boxe. Foi um chamamento à acção contra as condições de vida dos “desencorajados, desanimados, denegridos descidadãos do mundo”, como descreveu Don King, polémico promotor do combate. Foi, ao mesmo tempo, um momento pleno de afirmação e exaltação Africanas. Perante sessenta mil pessoas em ebulição, Ali recupera o seu título de campeão mundial após derrubar George “o calmeirão” Foreman com uma poderosa direita cruzada. Dele dirá Foreman: “Não afirmarei que é o maior pugilista de sempre, afirmarei antes que é a melhor pessoa que já conheci.” Mais do que lutar contra outros, Ali lutou por si, e, de modo igual, por outros.

Ali e Foreman permaneceram amigos até ao dia em que o primeiro morreu.

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[“IF HE KEEPS TALKING ABOUT ME, I’LL GET HIM IN THREE”] Como um nevoeiro que se instala, a doença progride em silêncio. O cérebro morre lentamente, surge o tremor nas mãos, a rigidez nos músculos, a dificuldade em andar, em falar. Parkinson é uma doença degenerativa do sistema nervoso central. Sem cura. O combate é desigual, desumano. Não há esperança.

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[“IF THAT DON’T DO, HE’LL FALL IN TWO”] Muhammad Ali não foi um homem perfeito. O homem inteiro nunca o é. Ele surgiu num daqueles tempos em que o mundo precisa de heróis, sabendo interpretar esse seu tempo e o papel que poderia ter para lá do boxe e do desporto. Como tão bem resumiu Jess Cagle, que o entrevistou para a revista Time, “In the end, this was a guy who spoke his mind and followed his heart. But he very willingly paid the price to do so. He knew that to be true to yourself did not come cheap. And so, his legacy truly is his courage. A kind of beautiful, unforgettable courage.” A coragem do boxeur que dança no ringue, a coragem do activista dos direitos civis. Ali, o poeta profético. Ali, o entertainer. Ali, o homem inteiro.

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[“IF YOU RUN, YOU’LL GO IN ONE”] Ali tinha uma boca tão grande e rápida como o punho, gabando-se perante o mundo de conseguir adivinhar o assalto em que os seus adversários cairiam. Acertou quase sempre: no adversário e na previsão!

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