sábado, 31 de dezembro de 2016






primeiros esboços



IV.


Eumar


O primeiro de tudo,
sou a vida em embalo líquido,
a rede lançada;
Da idade encantatória,
sou o verso do meio,
o enleio da sirene;
Teme-me andador de firmezas,
sou o fim da terra,
Eu sou o Mar.



V.

Encontro

Encontro-te aqui
nestes versos à espera de ser poema,
Não te escondas nas palavras
poema que ainda não és,
És ensejo do homem por acabar,
desejo de achamento
ou desmultiplicação,
Possibilidade em mim,
encontro-te, assim.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016






primeiros esboços



I.


Se a poesia me deixar entrar


Se a poesia me deixar entrar
na sua casa por engano,
Se ela me der a mão,
distraída no seu gesto,
Eu, inábil aceitante de sortes,
hesitarei.




II.


13:55


Foi às treze e cinquenta e cinco
que entendi a vida.
Não foi a vida estéril
onde crescem as flores de plástico.
Foi só a vida.
Às treze e cinquenta e cinco.




III.


Os teus lábios


A matemática impossível.
O porquê da guerra de Tróia.
Os meus primeiros quarenta e três anos de ignorância.
Em todas as palavras que não se deixam escrever,
Este poema que te dou
São os teus lábios.



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Sem condição





Deixámos de dizer a verdade. Não sei se foi hoje, se foi ontem, ou se esta verdade que nos deixou nunca existiu. Talvez ela seja produzida, a baixo custo, num prédio em Daca. Talvez ela seja uma fabricação nossa, uma industriosa mentira expedida como “Frágil” para um endereço há muito abandonado.

It was Agnes, the mother and grandmother of the woman and child that I murdered, who gave me my best lesson about love. She should hate me. [pause] But she didn’t. Instead, over the course of time, she gave me love. [long pause] She taught me what it was.

Deixámos de dizer a vulnerabilidade, impossível medida do sucesso dos dias, condicionados que fomos para ser máquinas perfeitas em fortalezas de silêncio.

Homens e mulheres sem erro que estais nos assentos da certeza, alcançai que o essencial são as viagens que fazemos uns nos outros. É nelas que retomamos o dizer da nossa condição. Para sempre humana.



“Human”, de Yann Arthus-Bertrand, Vol. 1

“Human”, de Yann Arthus-Bertrand, Vol. 2

“Human”, de Yann Arthus-Bertrand, Vol. 3



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Receita para um bom texto



Arranje uma boa ideia. Dessas que nascem nos prados viçosos, um pouco bucólicos até, da nossa mente. Estenda-a, à maneira antiga, sobre uma folha de papel e deixe-a libertar os seus sucos, os seus veios, as suas infinitas possibilidades. Remova cuidadosamente o excesso, os nervos, as inseguranças iniciáticas. Repita a operação e certifique-se de que não resta nada. Ficará com uma ideia limpa como o Egeu em Junho.

Permita que repousem, o escritor e o seu texto.

Retome em seguida a preparação. Ao texto, tempere-o, adicione-lhe contraste, fluidez, variações, ritmo, o inesperado. Menos quando pode juntar mais. E não revele, sugira. Verá como o apetite bem treinado do leitor logo imaginará todo o bom sabor dos vocábulos, das frases suculentas e do remanescente que fica por dizer. Ligue tudo e deixe maturar. Finalize com um toque pessoal e lembre-se: não há receitas para um bom texto.

Sirva a apreciadores da perdida arte de ler e outros comedores de palavras.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

«E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.»


   

- E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.

- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.

Herberto Helder


Voltei ao ginásio. Por razões de saúde regressei há dias ao reino dos espelhos. Quase 30 anos depois do boom da ginástica aeróbica, do step, do slide, dos alteres e da lycra que vivi com a intensidade de quem acreditava que a felicidade residia na medida perfeita, voltei a confrontar-me com o espelho. Um espelho que na década de 80 me fez também encontrar grandes amigos. Trocávamos metodologias de treino, riamo-nos muito com os disparates que fazíamos com as coreografias e os saraus que fazíamos no pavilhão gimnodesportivo da cidade onde vivi adolescência serviram sempre para aproximar mais o grupo.

30 anos depois ainda reencontro regularmente os amigos criados através do espelho, nenhum nós já com a medida perfeita e todos nós com a segura convicção que não é nela seguramente que reside a felicidade.

O meu recente regresso ao ginásio não foi, contudo, um regresso cristalino nem o reencontro com o espelho um passaporte para a partilha. Fui recebida por um pedido de introdução de um código na máquina de entrada no espaço ao que se seguiu um longo processo de medição de índices de massa corporal, percentagem de massa gorda e necessidades calóricas versus actividade física.

Depois disso, finalmente, o primeiro momento de interacção com um elemento humano - a personal trainer a quem paguei para me definir um plano de exercícios em função do diagnóstico médico que me levou ao regresso ao ginásio.

Na sala de treinos, o espelho, as máquinas, os alteres, os frequentadores do ginásio, os telemóveis, as aplicações e os phones enterrados nos ouvidos. A música sincopada e ao mesmo tempo o silêncio. Como se todos estivessem a olhar para dentro ou a evitar olhar para fora. Nenhuma conversa, nenhum sorriso, nenhuma troca de impressões sobre metodologias de treino ou gargalhadas com os disparates na coreografia do grupo que treinava ao ritmo da música sincopada. Nada.

Depois da explicação do meu plano de exercícios pela personal trainer fiquei ali no meio do grupo a terminar as repetições que me foram prescritas,  desprevenida, sem telemóvel e sem phones enterrados nos ouvidos. À chegada ao balneário já tinha o plano de treino no meu endereço de correio electrónico e o código de acesso à aplicação que me irá permitir treinar e manter os índices recém-descobertos em ordem e o problema de saúde controlado no telemóvel. À saída introduzi novamente o código na máquina para conseguir sair do ginásio e não havia ninguém de quem me despedir  antes de sair pela porta. Não fosse a personal trainer tão cara e preferiria tê-la sempre a acompanhar o treino nem que fosse só para comentar o suplício das flexões ou a vitória de conseguir fazer mais uma série de abdominais.

Já na rua percorri nervosamente toda a minha lista de números de telefones no telemóvel. Não volto ao ginásio sem um amigo daqueles acreditam que a felicidade não está na medida perfeita. E que interagem.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O homem inteiro


9

[“HE WILL BE MINE IN ROUND NINE”] Dizem que o coração humano é do tamanho de um punho fechado. Esta é uma breve história em nove assaltos daquele que nunca caiu fora do ringue, assim se tornando o Maior dos atletas. É a história do próprio coração do desporto.

8

[“HE MAY BE GREAT BUT HE WILL LEAVE IN EIGHT”] Cassius Clay, um jovem de 22 anos de Louisville, no Kentucky, não precisou que ninguém lhe dissesse que ia ser Grande. Olhando o corpo derrotado do superfavorito e agora ex-campeão Sonny Liston, deixa de poder conter o grito que o habita: “Abalei o mundo! Abalei o mundo! Eu sou o Maior de todos!”

7

[“IF HE WANNA GO TO HEAVEN, I’LL GET’EM IN SEVEN”] Poder-se-á nascer uma segunda vez? Pleno de confiança, na semana seguinte ao combate com Liston, Clay anuncia a sua conversão ao Islamismo. “Cassius Clay é um nome de escravo. Não o escolhi e não o quero. Eu sou Muhammad Ali.”

6

[“HE’LL BE WORTH OF A FIX IF I CUT HIM TO SIX”] Há actos que catapultam para a grandeza. Ali teve o seu naquela manhã de Abril de 67 em que arrisca tudo. O movimento dos direitos civis e a tensão racial andam nas ruas. “Não tenho desavenças com os vietcongues, nunca nenhum me chamou preto...”, disse antes de chegar ao centro de incorporação do exército em Houston. “Não serei usado pelo homem branco como um instrumento para matar pessoas que estão a lutar pela sua liberdade”, acrescentaria dias depois. Ainda que muçulmano, à semelhança de Pedro, Ali recusa por três vezes responder à chamada do seu nome. O oficial de incorporação avisa-o que arrisca cinco anos na prisão. Ali recusa novamente. É preso. Notem... aqui está um homem, um negro deus grego no seu apogeu, a abdicar das glórias futuras, e das conquistas passadas, em nome do que acredita ser certo. Muhammad Ali entrou naquele centro de incorporação do exército com o título de campeão mundial de pesos pesados. Despojado do seu título e com uma proibição de combater por um período de três anos, saiu dele como o Maior dos homens que ali se encontravam. Este foi o seu grande combate, esta a maior das suas vitórias.

5

[“IF HE KEEPS TALKING JIVE, HE’LL GO IN FIVE”] Welcome back, ladies and gentlemen, to the fifteenth and final round of the fight between world heavyweight champion Joe Frazier and challenger for the title Muhammad Ali. And what a fight it’s been! Both fighters touch gloves and it starts. Oh My God, Frazier lands a tremendous left hook that puts Ali on his back! Muhammad Ali is down at the beginning of the fifteenth round, ladies and gentlemen, and for the first time in his professional boxing career he may very well lose a fight!!!

(Terminado o combate, Joe Frazier mantém o título, mas os dois pugilistas são levados ao hospital. Ali e Frazier permaneceriam amigos até ao dia em que o segundo morreu.)

4

[“IF HE MAKES ME SORE, I’LL GET HIM IN FOUR”] Sim, pode nascer-se uma segunda vez. À luz da manhã, Ali corre, treina numa estrada de um bairro de lata de Kinshasa, no Zaire. Vê interiores de casas e paredes destruídas. Não vê tectos nem canalizações. “The Rumble in the Jungle” foi mais do que um combate de boxe. Foi um chamamento à acção contra as condições de vida dos “desencorajados, desanimados, denegridos descidadãos do mundo”, como descreveu Don King, polémico promotor do combate. Foi, ao mesmo tempo, um momento pleno de afirmação e exaltação Africanas. Perante sessenta mil pessoas em ebulição, Ali recupera o seu título de campeão mundial após derrubar George “o calmeirão” Foreman com uma poderosa direita cruzada. Dele dirá Foreman: “Não afirmarei que é o maior pugilista de sempre, afirmarei antes que é a melhor pessoa que já conheci.” Mais do que lutar contra outros, Ali lutou por si, e, de modo igual, por outros.

Ali e Foreman permaneceram amigos até ao dia em que o primeiro morreu.

3

[“IF HE KEEPS TALKING ABOUT ME, I’LL GET HIM IN THREE”] Como um nevoeiro que se instala, a doença progride em silêncio. O cérebro morre lentamente, surge o tremor nas mãos, a rigidez nos músculos, a dificuldade em andar, em falar. Parkinson é uma doença degenerativa do sistema nervoso central. Sem cura. O combate é desigual, desumano. Não há esperança.

2

[“IF THAT DON’T DO, HE’LL FALL IN TWO”] Muhammad Ali não foi um homem perfeito. O homem inteiro nunca o é. Ele surgiu num daqueles tempos em que o mundo precisa de heróis, sabendo interpretar esse seu tempo e o papel que poderia ter para lá do boxe e do desporto. Como tão bem resumiu Jess Cagle, que o entrevistou para a revista Time, “In the end, this was a guy who spoke his mind and followed his heart. But he very willingly paid the price to do so. He knew that to be true to yourself did not come cheap. And so, his legacy truly is his courage. A kind of beautiful, unforgettable courage.” A coragem do boxeur que dança no ringue, a coragem do activista dos direitos civis. Ali, o poeta profético. Ali, o entertainer. Ali, o homem inteiro.

1

[“IF YOU RUN, YOU’LL GO IN ONE”] Ali tinha uma boca tão grande e rápida como o punho, gabando-se perante o mundo de conseguir adivinhar o assalto em que os seus adversários cairiam. Acertou quase sempre: no adversário e na previsão!

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KNOCKOUT

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O drama do selfie-made man


I

o SeLfIe-MaDe MaN é feito de fotografias. Emendo e remendo: de pedaços fotografados em quasi-fotografias! Ele é um Frankenstein da era digital - uma cabeça (inclinada) aqui, um braço (esticado) ali, uns pés (deitados) acolá. Juntos não chegam para criar o homem inteiro. Em turismo, este pós-moderno filho de Prometeu deambula pela cidade, sem alma ou fogo interior, a cidade como a vida, desfocada e em segundo plano. Faltam metros ao seu tempo.

II

o S-M M já não é um homem (ou uma mulher), é um acrónimo desligado (e politicamente correcto) vivendo num mundo palavroso habitado por “runnings gourmet” e faróis “bi-xenon”. O ser perfeito criado através do texto imperfeito: uma palavra certa de bem-sucedida e bem popular bem-parecença, uma vírgula correcta de pausa fotográfica e estilo, um sentido exacto de gostar: de si, de ti e de mim.

III

Antes de ser selfie, há muitos anos, o S-M M foi self. Chegado lá à rua do muro da grande maçã das américas, fez-se a si mesmo com um fato no corpo e uma pasta na mão. Nessa cidade viu bolsas, bolhas, impérios, quedas.

IV

do S-M M, as estátuas desta cidade só lhe vêem as costas. O observado de pedra torna-se no observador de um homem segurando um pau de telefone. Eu fotografo, tu fotografas, ele fotografa, o mantra de um grupo em transe empunhando os seus filtradores de realidade da marca da maçã trincada. O visionamento, esse, é servido mais tarde, frio e por interposta retina.

V

o S-M M não vê a estátua, vê-se a si mesmo sobreposto à estátua. Não sente com os olhos os contornos demorados do material esculpido, a sua condição de ser pedra. Antes vê com as mãos no ecrã de vidro plano; um ecrã pleno de vidro onde deslizam, através da acção dos seus dedos, o futuro para a frente, o passado para trás. Tempo. Faltam metros ao nosso tempo.

[des]compasso




Páro mais uma vez no pavilhão da minha editora favorita.

Pouco exuberante mas com um catálogo extenso, consistente, sem sobressaltos ou concessões. Uma cronologia já longa. 

Ao burburinho festivo dos pavilhões em redor opõe-se um desfile de leitores silenciosos. À procura ou à espera de serem encontrados por um livro, uma linha ou um verso de um poema. 

O desfile é lento e cortês. Poucos atropelos e uma espécie de código de conduta – 

«Deixa-o ler em sossego para que ele te deixe ler em sossego a ti.»

Do outro lado do balcão ouve-se pontualmente um preço pela voz sumida do leitor que o vendedor também parece ser e uma ou outra referência a um título novo do autor cujo livro encontrámos ou nos encontrou. 

Silêncio, paciência e tempo parecem ser as condições de possibilidade para a sobrevivência do desfile de leitores que frequenta o pavilhão da minha editora favorita. 

No sentido inverso segue tonto e cego o compasso do mundo.

E eu, por entre o desfile de leitores silenciosos que frequenta o pavilhão da minha editora favorita, a contar o dinheiro que me resta na carteira que dita afinal a minha decisão de compra. A novidade do autor de quem tento ler todos os títulos, o livro de poemas cujo verso me diz a vida - que também ela anda a descompasso - ou o projecto em construção que é a biblioteca da minha filha?

Opto pelo projecto em construção e ainda consigo comprar o livro de poemas cujo verso me disse a vida porque estava a preço de saldo. E prossigo, contrariada, cedendo ao ritmo do compasso tonto e cego do mundo.

Silêncio, paciência e tempo parecem ser as condições de possibilidade para a sobrevivência do desfile de leitores que frequenta o pavilhão da minha editora favorita. 

O pavilhão estava cheio de leitores e o desfile era lento, silencioso e cortês.