quarta-feira, 22 de junho de 2016

[des]compasso




Páro mais uma vez no pavilhão da minha editora favorita.

Pouco exuberante mas com um catálogo extenso, consistente, sem sobressaltos ou concessões. Uma cronologia já longa. 

Ao burburinho festivo dos pavilhões em redor opõe-se um desfile de leitores silenciosos. À procura ou à espera de serem encontrados por um livro, uma linha ou um verso de um poema. 

O desfile é lento e cortês. Poucos atropelos e uma espécie de código de conduta – 

«Deixa-o ler em sossego para que ele te deixe ler em sossego a ti.»

Do outro lado do balcão ouve-se pontualmente um preço pela voz sumida do leitor que o vendedor também parece ser e uma ou outra referência a um título novo do autor cujo livro encontrámos ou nos encontrou. 

Silêncio, paciência e tempo parecem ser as condições de possibilidade para a sobrevivência do desfile de leitores que frequenta o pavilhão da minha editora favorita. 

No sentido inverso segue tonto e cego o compasso do mundo.

E eu, por entre o desfile de leitores silenciosos que frequenta o pavilhão da minha editora favorita, a contar o dinheiro que me resta na carteira que dita afinal a minha decisão de compra. A novidade do autor de quem tento ler todos os títulos, o livro de poemas cujo verso me diz a vida - que também ela anda a descompasso - ou o projecto em construção que é a biblioteca da minha filha?

Opto pelo projecto em construção e ainda consigo comprar o livro de poemas cujo verso me disse a vida porque estava a preço de saldo. E prossigo, contrariada, cedendo ao ritmo do compasso tonto e cego do mundo.

Silêncio, paciência e tempo parecem ser as condições de possibilidade para a sobrevivência do desfile de leitores que frequenta o pavilhão da minha editora favorita. 

O pavilhão estava cheio de leitores e o desfile era lento, silencioso e cortês.

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