O taxista que me transporta é igual ao William Burroughs. Além
de muito magro tem as feições carcomidas pelo tabaco e pelos dias. As mãos são
lindíssimas, enormes e angulosas. Conta-me que descende de uma família numerosa
do qual foi o único que não terminou um curso universitário. Tentou vários mas
abandonou-os a meio ou a menos de meio. Achava sempre que a biblioteca,
extensa, da mãe lhe dava mais do que a universidade. «Reading gives you the skills for living» é o
meu lema. Hoje, quase com 70 anos, lê, fuma, tem amigos e conduz um táxi
muito velho e a cheirar a tabaco. E diz que é quase feliz.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
sábado, 31 de dezembro de 2016
primeiros esboços
IV.
Eumar
O primeiro de tudo,
sou a vida em embalo líquido,
a rede lançada;
Da idade encantatória,
sou o verso do meio,
o enleio da sirene;
Da idade encantatória,
sou o verso do meio,
o enleio da sirene;
Teme-me andador de firmezas,
sou o fim da terra,
Eu sou o Mar.
V.
Encontro
Encontro-te aqui
nestes versos à espera de ser poema,
Não te escondas nas palavras
poema que ainda não és,
És ensejo do homem por acabar,
desejo de achamento
ou desmultiplicação,
Possibilidade em mim,
encontro-te, assim.
Eu sou o Mar.
Encontro
Encontro-te aqui
nestes versos à espera de ser poema,
Não te escondas nas palavras
poema que ainda não és,
És ensejo do homem por acabar,
desejo de achamento
ou desmultiplicação,
Possibilidade em mim,
encontro-te, assim.
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
primeiros esboços
I.
Se a
poesia me deixar entrar
Se a
poesia me deixar entrar
na sua
casa por engano,
Se ela me
der a mão,
distraída
no seu gesto,
Eu, inábil
aceitante de sortes,
hesitarei.
II.
13:55
Foi às
treze e cinquenta e cinco
que entendi
a vida.
Não foi a
vida estéril
onde
crescem as flores de plástico.
Foi só a
vida.
Às treze e
cinquenta e cinco.
III.
Os teus
lábios
A
matemática impossível.
O porquê
da guerra de Tróia.
Os meus
primeiros quarenta e três anos de ignorância.
Em todas
as palavras que não se deixam escrever,
Este poema
que te dou
São os teus lábios.
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Sem condição
Deixámos de dizer a verdade. Não sei se foi hoje, se foi ontem, ou se
esta verdade que nos deixou nunca existiu. Talvez ela seja produzida, a baixo
custo, num prédio em Daca. Talvez ela seja uma fabricação nossa, uma
industriosa mentira expedida como “Frágil” para um endereço há muito
abandonado.
– It was Agnes, the mother and
grandmother of the woman and child that I murdered, who gave me my best lesson
about love. She should hate me. [pause] But she didn’t. Instead, over the course
of time, she gave me love. [long pause] She taught me what it was.
Deixámos de dizer a vulnerabilidade, impossível medida do sucesso dos
dias, condicionados que fomos para ser máquinas perfeitas em fortalezas de
silêncio.
Homens e mulheres sem erro que estais nos assentos da certeza, alcançai
que o essencial são as viagens que fazemos uns nos outros. É nelas que retomamos
o dizer da nossa condição. Para sempre humana.
“Human”, de Yann Arthus-Bertrand,
Vol. 1
“Human”, de Yann Arthus-Bertrand,
Vol. 2
“Human”, de Yann Arthus-Bertrand,
Vol. 3
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Receita para um bom texto
Arranje uma boa ideia. Dessas que nascem nos prados viçosos, um pouco
bucólicos até, da nossa mente. Estenda-a, à maneira antiga, sobre uma folha de
papel e deixe-a libertar os seus sucos, os seus veios, as suas infinitas
possibilidades. Remova cuidadosamente o excesso, os nervos, as inseguranças
iniciáticas. Repita a operação e certifique-se de que não resta nada. Ficará
com uma ideia limpa como o Egeu em Junho.
Permita
que repousem, o escritor e o seu texto.
Retome em seguida a preparação. Ao texto,
tempere-o, adicione-lhe contraste, fluidez, variações, ritmo, o inesperado. Menos
quando pode juntar mais. E não revele, sugira. Verá como o apetite bem treinado
do leitor logo imaginará todo o bom sabor dos vocábulos, das frases suculentas
e do remanescente que fica por dizer. Ligue tudo e deixe maturar. Finalize com um
toque pessoal e lembre-se: não há receitas para um bom texto.
Sirva a apreciadores da perdida
arte de ler e outros comedores de palavras.
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
«E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.»
- E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.
- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.
Herberto
Helder
Voltei ao ginásio. Por razões de saúde regressei há
dias ao reino dos espelhos. Quase 30 anos depois do boom da ginástica aeróbica, do step, do slide, dos alteres e da lycra que vivi com a intensidade de quem acreditava que a
felicidade residia na medida perfeita, voltei a confrontar-me com o espelho. Um
espelho que na década de 80 me fez também encontrar grandes amigos. Trocávamos
metodologias de treino, riamo-nos muito com os disparates que fazíamos com as
coreografias e os saraus que fazíamos no pavilhão gimnodesportivo da cidade
onde vivi adolescência serviram sempre para aproximar mais o grupo.
30 anos depois ainda reencontro regularmente os
amigos criados através do espelho, nenhum nós já com a medida perfeita e todos
nós com a segura convicção que não é nela seguramente que reside a felicidade.
O meu recente regresso ao ginásio não foi, contudo,
um regresso cristalino nem o reencontro com o espelho um passaporte para a
partilha. Fui recebida por um pedido de introdução de um código na máquina de
entrada no espaço ao que se seguiu um longo processo de medição de índices de
massa corporal, percentagem de massa gorda e necessidades calóricas versus
actividade física.
Depois disso, finalmente, o primeiro momento de
interacção com um elemento humano - a personal trainer a quem paguei para me definir um plano de exercícios em função do
diagnóstico médico que me levou ao regresso ao ginásio.
Na sala de treinos, o espelho, as máquinas, os
alteres, os frequentadores do ginásio, os telemóveis, as aplicações e os phones enterrados nos ouvidos. A música sincopada e ao
mesmo tempo o silêncio. Como se todos estivessem a olhar para dentro ou a
evitar olhar para fora. Nenhuma conversa, nenhum sorriso, nenhuma troca de
impressões sobre metodologias de treino ou gargalhadas com os disparates na
coreografia do grupo que treinava ao ritmo da música sincopada. Nada.
Depois da explicação do meu plano de exercícios pela personal trainer fiquei ali no meio do grupo a terminar as repetições
que me foram prescritas, desprevenida, sem telemóvel e sem phones enterrados nos ouvidos. À chegada ao balneário já
tinha o plano de treino no meu endereço de correio electrónico e o código de
acesso à aplicação que me irá permitir treinar e manter os índices
recém-descobertos em ordem e o problema de saúde controlado no telemóvel. À
saída introduzi novamente o código na máquina para conseguir sair do ginásio e
não havia ninguém de quem me despedir
antes de sair pela porta. Não fosse a personal trainer tão cara e preferiria tê-la sempre a acompanhar o
treino nem que fosse só para comentar o suplício das flexões ou a vitória de
conseguir fazer mais uma série de abdominais.
Já na rua percorri nervosamente toda a
minha lista de números de telefones no telemóvel. Não volto ao ginásio sem um
amigo daqueles acreditam que a felicidade não está na medida perfeita. E que
interagem.
sexta-feira, 29 de julho de 2016
O homem inteiro
9
[“HE WILL BE MINE IN ROUND NINE”] Dizem que o coração humano é
do tamanho de um punho fechado. Esta é uma breve história em nove assaltos daquele
que nunca caiu fora do ringue, assim se tornando o Maior dos atletas. É a
história do próprio coração do desporto.
8
[“HE MAY BE GREAT BUT HE WILL LEAVE IN EIGHT”] Cassius Clay, um
jovem de 22 anos de Louisville, no Kentucky, não precisou que ninguém lhe dissesse
que ia ser Grande. Olhando o corpo derrotado do superfavorito e agora ex-campeão Sonny
Liston, deixa de poder conter o grito que o habita: “Abalei o mundo! Abalei o mundo! Eu sou o Maior de todos!”
7
[“IF HE WANNA GO TO HEAVEN, I’LL GET’EM IN SEVEN”] Poder-se-á
nascer uma segunda vez? Pleno de confiança, na semana seguinte ao combate com
Liston, Clay anuncia a sua conversão ao Islamismo. “Cassius Clay é um nome de
escravo. Não o escolhi e não o quero. Eu sou Muhammad Ali.”
6
[“HE’LL BE WORTH OF A FIX IF I CUT HIM TO SIX”] Há actos que catapultam para a grandeza. Ali teve o seu naquela manhã de Abril de 67
em que arrisca tudo. O movimento dos direitos civis e a tensão racial andam nas
ruas. “Não tenho desavenças com os vietcongues, nunca nenhum me chamou preto...”, disse antes de chegar ao centro
de incorporação do exército em Houston. “Não serei
usado pelo homem branco como um instrumento para matar pessoas que estão a
lutar pela sua liberdade”, acrescentaria dias depois. Ainda que muçulmano, à semelhança de Pedro, Ali recusa por três vezes
responder à chamada do seu nome. O oficial de incorporação avisa-o que arrisca cinco
anos na prisão. Ali recusa novamente. É preso. Notem... aqui está um homem, um
negro deus grego no seu apogeu, a abdicar das glórias futuras, e das conquistas passadas, em nome do que acredita ser certo. Muhammad Ali entrou naquele
centro de incorporação do exército com o título de campeão mundial de pesos
pesados. Despojado do seu título e com uma proibição de combater por um período
de três anos, saiu dele como o Maior dos homens que ali se encontravam. Este
foi o seu grande combate, esta a maior das suas vitórias.
5
[“IF HE KEEPS TALKING JIVE, HE’LL GO IN FIVE”] Welcome back, ladies and gentlemen, to the
fifteenth and final round of the fight between world heavyweight champion Joe
Frazier and challenger for the title Muhammad Ali. And what a fight it’s been! Both
fighters touch gloves and it starts. Oh My God, Frazier lands a tremendous left
hook that puts Ali on his back! Muhammad Ali is down at the beginning of the fifteenth round, ladies and gentlemen, and
for the first time in his professional boxing career he may very well lose a fight!!!
(Terminado
o combate, Joe Frazier mantém o título, mas os dois pugilistas são levados
ao hospital. Ali e Frazier permaneceriam amigos até ao dia em que o
segundo morreu.)
4
[“IF HE MAKES ME SORE, I’LL GET HIM IN FOUR”] Sim, pode
nascer-se uma segunda vez. À luz da manhã, Ali corre, treina numa estrada de um
bairro de lata de Kinshasa, no Zaire. Vê interiores de casas e paredes
destruídas. Não vê tectos nem canalizações. “The Rumble in the Jungle” foi mais
do que um combate de boxe. Foi um chamamento à acção contra as condições de
vida dos “desencorajados, desanimados, denegridos descidadãos do mundo”, como
descreveu Don King, polémico promotor do combate. Foi, ao mesmo tempo, um momento
pleno de afirmação e exaltação Africanas. Perante sessenta mil pessoas em ebulição,
Ali recupera o seu título de campeão mundial após derrubar George “o calmeirão”
Foreman com uma poderosa direita cruzada. Dele dirá Foreman: “Não afirmarei que
é o maior pugilista de sempre, afirmarei antes que é a melhor pessoa que já
conheci.” Mais do que lutar contra outros, Ali lutou por si, e, de modo igual, por
outros.
Ali e Foreman permaneceram amigos até ao dia em que o primeiro morreu.
3
[“IF HE KEEPS TALKING ABOUT ME, I’LL GET HIM IN THREE”] Como um
nevoeiro que se instala, a doença progride em silêncio. O cérebro morre
lentamente, surge o tremor nas mãos, a rigidez nos músculos, a dificuldade em
andar, em falar. Parkinson é uma doença degenerativa do sistema nervoso
central. Sem cura. O combate é desigual, desumano. Não há esperança.
2
[“IF THAT DON’T DO, HE’LL FALL IN TWO”] Muhammad Ali não foi
um homem perfeito. O homem inteiro nunca o é. Ele surgiu num daqueles tempos em
que o mundo precisa de heróis, sabendo interpretar esse seu tempo e o papel que
poderia ter para lá do boxe e do desporto. Como tão bem resumiu Jess Cagle, que o entrevistou para a revista Time, “In
the end, this was a guy who spoke his mind and followed his heart. But he very
willingly paid the price to do so. He knew that to be true to yourself did not
come cheap. And so, his legacy truly is his courage. A kind of beautiful,
unforgettable courage.” A coragem do boxeur que dança no
ringue, a coragem do activista dos direitos civis. Ali, o poeta profético. Ali,
o entertainer. Ali, o homem inteiro.
1
[“IF YOU RUN, YOU’LL GO IN ONE”] Ali tinha uma boca tão grande e rápida como o punho, gabando-se
perante o mundo de conseguir adivinhar o assalto em que os seus adversários
cairiam. Acertou
quase sempre: no adversário e na previsão!
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