quarta-feira, 22 de junho de 2016

O drama do selfie-made man


I

o SeLfIe-MaDe MaN é feito de fotografias. Emendo e remendo: de pedaços fotografados em quasi-fotografias! Ele é um Frankenstein da era digital - uma cabeça (inclinada) aqui, um braço (esticado) ali, uns pés (deitados) acolá. Juntos não chegam para criar o homem inteiro. Em turismo, este pós-moderno filho de Prometeu deambula pela cidade, sem alma ou fogo interior, a cidade como a vida, desfocada e em segundo plano. Faltam metros ao seu tempo.

II

o S-M M já não é um homem (ou uma mulher), é um acrónimo desligado (e politicamente correcto) vivendo num mundo palavroso habitado por “runnings gourmet” e faróis “bi-xenon”. O ser perfeito criado através do texto imperfeito: uma palavra certa de bem-sucedida e bem popular bem-parecença, uma vírgula correcta de pausa fotográfica e estilo, um sentido exacto de gostar: de si, de ti e de mim.

III

Antes de ser selfie, há muitos anos, o S-M M foi self. Chegado lá à rua do muro da grande maçã das américas, fez-se a si mesmo com um fato no corpo e uma pasta na mão. Nessa cidade viu bolsas, bolhas, impérios, quedas.

IV

do S-M M, as estátuas desta cidade só lhe vêem as costas. O observado de pedra torna-se no observador de um homem segurando um pau de telefone. Eu fotografo, tu fotografas, ele fotografa, o mantra de um grupo em transe empunhando os seus filtradores de realidade da marca da maçã trincada. O visionamento, esse, é servido mais tarde, frio e por interposta retina.

V

o S-M M não vê a estátua, vê-se a si mesmo sobreposto à estátua. Não sente com os olhos os contornos demorados do material esculpido, a sua condição de ser pedra. Antes vê com as mãos no ecrã de vidro plano; um ecrã pleno de vidro onde deslizam, através da acção dos seus dedos, o futuro para a frente, o passado para trás. Tempo. Faltam metros ao nosso tempo.

[des]compasso




Páro mais uma vez no pavilhão da minha editora favorita.

Pouco exuberante mas com um catálogo extenso, consistente, sem sobressaltos ou concessões. Uma cronologia já longa. 

Ao burburinho festivo dos pavilhões em redor opõe-se um desfile de leitores silenciosos. À procura ou à espera de serem encontrados por um livro, uma linha ou um verso de um poema. 

O desfile é lento e cortês. Poucos atropelos e uma espécie de código de conduta – 

«Deixa-o ler em sossego para que ele te deixe ler em sossego a ti.»

Do outro lado do balcão ouve-se pontualmente um preço pela voz sumida do leitor que o vendedor também parece ser e uma ou outra referência a um título novo do autor cujo livro encontrámos ou nos encontrou. 

Silêncio, paciência e tempo parecem ser as condições de possibilidade para a sobrevivência do desfile de leitores que frequenta o pavilhão da minha editora favorita. 

No sentido inverso segue tonto e cego o compasso do mundo.

E eu, por entre o desfile de leitores silenciosos que frequenta o pavilhão da minha editora favorita, a contar o dinheiro que me resta na carteira que dita afinal a minha decisão de compra. A novidade do autor de quem tento ler todos os títulos, o livro de poemas cujo verso me diz a vida - que também ela anda a descompasso - ou o projecto em construção que é a biblioteca da minha filha?

Opto pelo projecto em construção e ainda consigo comprar o livro de poemas cujo verso me disse a vida porque estava a preço de saldo. E prossigo, contrariada, cedendo ao ritmo do compasso tonto e cego do mundo.

Silêncio, paciência e tempo parecem ser as condições de possibilidade para a sobrevivência do desfile de leitores que frequenta o pavilhão da minha editora favorita. 

O pavilhão estava cheio de leitores e o desfile era lento, silencioso e cortês.