I
o SeLfIe-MaDe MaN é feito de fotografias. Emendo e remendo:
de pedaços fotografados em quasi-fotografias! Ele é um Frankenstein da era
digital - uma cabeça (inclinada) aqui, um braço (esticado) ali, uns pés
(deitados) acolá. Juntos não chegam para criar o homem inteiro. Em turismo,
este pós-moderno filho de Prometeu deambula pela cidade, sem alma ou fogo
interior, a cidade como a vida, desfocada e em segundo plano. Faltam metros ao seu tempo.
II
o S-M M já não é um homem (ou uma mulher), é um acrónimo
desligado (e politicamente correcto) vivendo num mundo palavroso habitado por
“runnings gourmet” e faróis “bi-xenon”. O ser perfeito criado através do texto
imperfeito: uma palavra certa de bem-sucedida e bem popular bem-parecença, uma
vírgula correcta de pausa fotográfica e estilo, um sentido exacto de gostar: de
si, de ti e de mim.
III
Antes de
ser selfie, há muitos anos, o S-M M foi self. Chegado lá à rua do muro da
grande maçã das américas, fez-se a si mesmo com um fato no corpo e uma pasta na
mão. Nessa cidade viu bolsas, bolhas, impérios, quedas.
IV
do S-M M, as estátuas desta cidade só lhe vêem as costas. O
observado de pedra torna-se no observador de um homem segurando um pau de
telefone. Eu fotografo, tu fotografas, ele fotografa, o mantra de um grupo em
transe empunhando os seus filtradores de realidade da marca da maçã trincada. O
visionamento, esse, é servido mais tarde, frio e por interposta retina.
V
o S-M M não vê a estátua, vê-se a si mesmo sobreposto à
estátua. Não sente com os olhos os contornos demorados do material esculpido, a
sua condição de ser pedra. Antes vê com as mãos no ecrã de vidro plano; um ecrã
pleno de vidro onde deslizam, através da acção dos seus dedos, o futuro para a
frente, o passado para trás. Tempo. Faltam metros ao nosso tempo.

