quarta-feira, 31 de agosto de 2016

«E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.»


   

- E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.

- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.

Herberto Helder


Voltei ao ginásio. Por razões de saúde regressei há dias ao reino dos espelhos. Quase 30 anos depois do boom da ginástica aeróbica, do step, do slide, dos alteres e da lycra que vivi com a intensidade de quem acreditava que a felicidade residia na medida perfeita, voltei a confrontar-me com o espelho. Um espelho que na década de 80 me fez também encontrar grandes amigos. Trocávamos metodologias de treino, riamo-nos muito com os disparates que fazíamos com as coreografias e os saraus que fazíamos no pavilhão gimnodesportivo da cidade onde vivi adolescência serviram sempre para aproximar mais o grupo.

30 anos depois ainda reencontro regularmente os amigos criados através do espelho, nenhum nós já com a medida perfeita e todos nós com a segura convicção que não é nela seguramente que reside a felicidade.

O meu recente regresso ao ginásio não foi, contudo, um regresso cristalino nem o reencontro com o espelho um passaporte para a partilha. Fui recebida por um pedido de introdução de um código na máquina de entrada no espaço ao que se seguiu um longo processo de medição de índices de massa corporal, percentagem de massa gorda e necessidades calóricas versus actividade física.

Depois disso, finalmente, o primeiro momento de interacção com um elemento humano - a personal trainer a quem paguei para me definir um plano de exercícios em função do diagnóstico médico que me levou ao regresso ao ginásio.

Na sala de treinos, o espelho, as máquinas, os alteres, os frequentadores do ginásio, os telemóveis, as aplicações e os phones enterrados nos ouvidos. A música sincopada e ao mesmo tempo o silêncio. Como se todos estivessem a olhar para dentro ou a evitar olhar para fora. Nenhuma conversa, nenhum sorriso, nenhuma troca de impressões sobre metodologias de treino ou gargalhadas com os disparates na coreografia do grupo que treinava ao ritmo da música sincopada. Nada.

Depois da explicação do meu plano de exercícios pela personal trainer fiquei ali no meio do grupo a terminar as repetições que me foram prescritas,  desprevenida, sem telemóvel e sem phones enterrados nos ouvidos. À chegada ao balneário já tinha o plano de treino no meu endereço de correio electrónico e o código de acesso à aplicação que me irá permitir treinar e manter os índices recém-descobertos em ordem e o problema de saúde controlado no telemóvel. À saída introduzi novamente o código na máquina para conseguir sair do ginásio e não havia ninguém de quem me despedir  antes de sair pela porta. Não fosse a personal trainer tão cara e preferiria tê-la sempre a acompanhar o treino nem que fosse só para comentar o suplício das flexões ou a vitória de conseguir fazer mais uma série de abdominais.

Já na rua percorri nervosamente toda a minha lista de números de telefones no telemóvel. Não volto ao ginásio sem um amigo daqueles acreditam que a felicidade não está na medida perfeita. E que interagem.