- E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.
- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.
Herberto
Helder
Voltei ao ginásio. Por razões de saúde regressei há
dias ao reino dos espelhos. Quase 30 anos depois do boom da ginástica aeróbica, do step, do slide, dos alteres e da lycra que vivi com a intensidade de quem acreditava que a
felicidade residia na medida perfeita, voltei a confrontar-me com o espelho. Um
espelho que na década de 80 me fez também encontrar grandes amigos. Trocávamos
metodologias de treino, riamo-nos muito com os disparates que fazíamos com as
coreografias e os saraus que fazíamos no pavilhão gimnodesportivo da cidade
onde vivi adolescência serviram sempre para aproximar mais o grupo.
30 anos depois ainda reencontro regularmente os
amigos criados através do espelho, nenhum nós já com a medida perfeita e todos
nós com a segura convicção que não é nela seguramente que reside a felicidade.
O meu recente regresso ao ginásio não foi, contudo,
um regresso cristalino nem o reencontro com o espelho um passaporte para a
partilha. Fui recebida por um pedido de introdução de um código na máquina de
entrada no espaço ao que se seguiu um longo processo de medição de índices de
massa corporal, percentagem de massa gorda e necessidades calóricas versus
actividade física.
Depois disso, finalmente, o primeiro momento de
interacção com um elemento humano - a personal trainer a quem paguei para me definir um plano de exercícios em função do
diagnóstico médico que me levou ao regresso ao ginásio.
Na sala de treinos, o espelho, as máquinas, os
alteres, os frequentadores do ginásio, os telemóveis, as aplicações e os phones enterrados nos ouvidos. A música sincopada e ao
mesmo tempo o silêncio. Como se todos estivessem a olhar para dentro ou a
evitar olhar para fora. Nenhuma conversa, nenhum sorriso, nenhuma troca de
impressões sobre metodologias de treino ou gargalhadas com os disparates na
coreografia do grupo que treinava ao ritmo da música sincopada. Nada.
Depois da explicação do meu plano de exercícios pela personal trainer fiquei ali no meio do grupo a terminar as repetições
que me foram prescritas, desprevenida, sem telemóvel e sem phones enterrados nos ouvidos. À chegada ao balneário já
tinha o plano de treino no meu endereço de correio electrónico e o código de
acesso à aplicação que me irá permitir treinar e manter os índices
recém-descobertos em ordem e o problema de saúde controlado no telemóvel. À
saída introduzi novamente o código na máquina para conseguir sair do ginásio e
não havia ninguém de quem me despedir
antes de sair pela porta. Não fosse a personal trainer tão cara e preferiria tê-la sempre a acompanhar o
treino nem que fosse só para comentar o suplício das flexões ou a vitória de
conseguir fazer mais uma série de abdominais.
Já na rua percorri nervosamente toda a
minha lista de números de telefones no telemóvel. Não volto ao ginásio sem um
amigo daqueles acreditam que a felicidade não está na medida perfeita. E que
interagem.

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